Duas décadas após o início das aulas em Palmeira das Missões, egressos da UFSM compartilham como o acesso ao ensino superior gratuito abriu caminhos profissionais e transformou suas vidas
Em 16 de outubro de 2006, quando as primeiras turmas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) iniciaram as aulas em Palmeira das Missões, começava também uma nova etapa para a educação superior na região. Para muitos estudantes, a chegada do campus representava a possibilidade de cursar uma graduação gratuita sem precisar se deslocar para cidades distantes ou comprometer o orçamento familiar com mensalidades e custos de moradia.
Vinte anos depois, a história da instituição também pode ser contada pelas trajetórias de quem passou por suas salas de aula, laboratórios e espaços de convivência. São caminhos diferentes, construídos a partir de oportunidades que se desdobraram para além da formação acadêmica. Entre os que encontraram no campus o ponto de partida para uma carreira universitária, os que descobriram novas possibilidades profissionais e aqueles que precisaram superar dificuldades para concluir os estudos, há um elemento em comum: a importância de ter acesso ao ensino superior.
As experiências de Rodrigo Borille, Mônica Rodrigues Amorin e Bruno Nunes da Rocha Tres ajudam a dimensionar o significado da universidade pública na vida de quem encontrou nela uma oportunidade de crescimento.
Uma trajetória que começou na primeira turma

Natural de Arvorezinha, no Vale do Taquari, Rodrigo Borille ingressou na primeira turma do curso de Zootecnia da UFSM-PM, em 2006. Além da proximidade de Palmeira com sua cidade natal, havia uma questão decisiva: as condições financeiras da família não permitiam custear uma graduação particular. Para Rodrigo, a universidade federal era a possibilidade concreta de realizar o sonho de concluir um curso superior.
Ele recorda a expectativa pela divulgação dos resultados do vestibular e pelo início das aulas, que acabou sendo adiado em razão da greve que afetava a universidade naquele período. A espera terminou em 16 de outubro, data que permanece viva em sua memória. “Lembro como se fosse hoje o primeiro dia de aula da turma. A chegada da universidade tornou viável a realização do sonho de cursar uma graduação em uma federal, em uma cidade que não fosse tão distante de onde a gente morava”, relata.

Inicialmente, Rodrigo imaginava concluir Zootecnia e procurar emprego na área. A convivência com os professores, entretanto, despertou um interesse que ele ainda não conhecia: a pesquisa científica e a vida acadêmica. Incentivado pelo orientador, começou a se preparar para continuar os estudos após a graduação.
Concluiu Zootecnia no final de 2010 e, em março do ano seguinte, iniciou o mestrado na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Na sequência, ingressou no doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, concluído em 2016. Nesse mesmo ano, surgiu uma oportunidade que o levaria de volta ao lugar onde tudo havia começado: a abertura de concurso público para professor da UFSM-PM, na sua área de atuação, no qual foi aprovado e nomeado em fevereiro de 2017.
O retorno representou a realização de um objetivo que havia amadurecido desde os primeiros anos da graduação: construir uma carreira acadêmica na própria instituição em que se formou. Hoje, Rodrigo vive em Palmeira das Missões com a família, tem dois filhos nascidos no município e segue atuando como professor no campus. “Foi uma realização de vários sonhos. A possibilidade de estar aqui representa tudo o que sou hoje: um professor realizado, desenvolvendo minhas atividades em uma cidade onde eu queria estar”, afirma.
Uma formação que abriu novas possibilidades
A afinidade com os números e a proximidade de interesses levaram Mônica Rodrigues Amorin à escolha por cursar Ciências Econômicas no campus da UFSM-PM. Ao longo do curso, ela descobriu uma formação mais ampla do que imaginava, com conhecimentos que posteriormente se tornariam importantes para sua atuação profissional.
A experiência, porém, não ficou restrita às disciplinas. Mônica, que nasceu em Palmeira, foi bolsista da direção do campus e do laboratório de microeconomia, participou de semanas acadêmicas, seminários e eventos científicos e integrou o Diretório Central dos Estudantes (DCE). As atividades permitiram conhecer diferentes dimensões da universidade, desde sua organização administrativa até a participação dos estudantes nas decisões e iniciativas da comunidade acadêmica.

Durante a graduação, também cursou disciplinas de Administração, ampliando os conhecimentos que hoje utiliza no mercado de trabalho. Atualmente, atua na área de marketing, trabalha como social media e possui a própria empresa. “Eu sempre gostei de estar presente e de aproveitar o máximo daquilo que a faculdade tinha para oferecer. Foi uma experiência maravilhosa, tanto pelo curso quanto por tudo o que consegui viver, aprender e conhecer dentro do campus”, conta.
Embora não exerça diretamente a profissão de economista, Mônica reconhece na formação universitária a base de conhecimentos que utiliza para compreender o mercado, analisar tendências e desenvolver estratégias para seus clientes. “Se você conseguir aproveitar tudo o que a faculdade oferece, vai sair de lá outro ser humano, outro profissional, com outro olhar e outra visão”, afirma.

O apoio para superar as dificuldades e concluir a graduação
Após concluir o magistério, Bruno Nunes da Rocha Tres pretendia continuar os estudos e seguir na área da educação, mas as condições financeiras tornavam difícil cursar uma graduação em outra cidade. A oportunidade de estudar em uma universidade pública no próprio município permitiu que ele desse continuidade à formação. A aprovação no curso de Administração veio em 2016, mas o início da graduação não ocorreu exatamente como havia planejado. O curso escolhido não correspondia à sua primeira opção profissional, e a adaptação foi gradual.

Nos primeiros semestres, enfrentou reprovações e precisou reorganizar o percurso acadêmico para recuperar disciplinas e acompanhar a sequência do curso. Durante a pandemia, também interrompeu temporariamente os estudos. A conclusão da graduação, portanto, exigiu mais tempo do que o previsto inicialmente.
Foi por meio das experiências práticas que Bruno passou a enxergar novas possibilidades na área da Administração. Os estágios não obrigatórios permitiram relacionar os conteúdos estudados em sala de aula às atividades profissionais. Mais tarde, a participação na Visão Júnior, empresa júnior vinculada ao campus e ao curso, contribuiu para ampliar sua compreensão sobre os diferentes campos de atuação, como gestão de pessoas, área financeira, setor comercial e marketing.
A permanência na universidade, entretanto, não dependeu apenas da iniciativa individual. Nos últimos semestres, ele recebeu acompanhamento da equipe pedagógica da instituição, incluindo o atendimento de uma psicopedagoga, com quem conversou sobre as dificuldades enfrentadas e os planos para concluir o curso.
Segundo Bruno, esse acompanhamento contribuiu para que pudesse reorganizar sua trajetória e seguir até a formatura, concluída em 2026. Ele destaca a importância de a universidade procurar compreender as circunstâncias de cada estudante, especialmente quando o tempo de conclusão se estende além do previsto. “Há alunos que enfrentam imprevistos, como aconteceu comigo, e precisam de mais tempo”, relata. A conquista do diploma tem também um significado familiar: ele foi o primeiro integrante da família a se formar em uma universidade federal.

Fotos: Arquivo pessoal