Impacto do novo projeto provoca demissões e debate no município
A decisão da prefeitura de centralizar vagas da educação infantil em um novo centro no antigo campus da Universidade de Passo Fundo (UPF) em Palmeira das Missões já começa a gerar impactos no município. Pelo menos três escolinhas conveniadas confirmaram que irão encerrar as atividades, enquanto pais manifestam preocupação com a mudança prevista para abril.
Atualmente, o município compra 180 vagas de educação infantil em escolas particulares, distribuídas em seis instituições conveniadas, 30 vagas em cada escola. Com a criação do novo espaço municipal, esses contratos não serão renovados e as crianças deverão ser transferidas para o novo centro.
Secretário defende criação de grande centro infantil
Segundo o secretário municipal de Educação, Alfredo Avila, a utilização da área da UPF é resultado de um projeto que estava sendo discutido há bastante tempo pela comunidade e pela administração municipal.
De acordo com o secretário, o local era visto como um espaço privilegiado da cidade, mas que estava abandonado e sem utilização.
Após negociações com a universidade, a prefeitura conseguiu firmar um contrato para utilização da área. “Esse é um sonho que foi sendo construído ao longo do tempo. Fizemos várias conversas com a reitoria e com a Fundação UPF até conseguirmos concretizar essa negociação”, afirmou.
Desde a assinatura do acordo, equipes da prefeitura iniciaram trabalhos de limpeza e preparação do espaço. A Brigada Militar e o Corpo de Bombeiros também auxiliaram na lavagem externa do prédio, além de mutirões de roçada e manutenção da área.
A expectativa é que o local esteja pronto para receber as crianças quando os contratos atuais com as escolas conveniadas encerrarem, por volta de 20 de abril.
Segundo a Secretaria de Educação, atualmente o município investe mais de um milhão de reais por mês na compra dessas vagas na rede privada.
Como esses alunos não entram no censo da rede municipal, o município não recebe retorno financeiro por meio do Fundeb.
A proposta da administração é que o novo espaço se torne uma referência regional em educação infantil. “Cada sala terá três profissionais, além de equipe pedagógica e de apoio, como cozinheiras, merendeiras e serventes. Queremos uma escola de primeiro mundo para a população”, afirmou o secretário.
Três escolinhas confirmam fechamento
Com o fim do convênio com a prefeitura, três escolinhas já confirmaram que irão encerrar as atividades.
Cintia Beatriz Treptow da Rosa, proprietária do Centro de Aprendizagem Infantil Mundo Mágico, explica que o funcionamento se torna inviável sem a compra das vagas pelo município. “O motivo do fechamento é a não renovação da compra de vagas pela prefeitura. Nosso contrato vence no dia 20 de abril e as crianças serão realocadas para o espaço da UPF”, afirmou.
Segundo ela, a mudança deve provocar aproximadamente 50 demissões entre as escolas afetadas.
A diretora da Escolinha Sonho Infantil, Flávia Garzão, também confirmou o fechamento da instituição. “Minha escola vai fechar, sim, porque eu tenho somente 30 crianças do convênio. As que eu tinha como particulares passaram para o convênio, então fiquei apenas com os alunos conveniados”, explicou.
Ela relata que muitos pais estão preocupados com a mudança no meio do ano letivo. “Eles já compraram material, encomendaram uniforme e passaram por todo o processo de adaptação das crianças”, disse.
Já as proprietárias da Escola Educação, Simone Oliveira Bueno e Clair de Fátima Oliveira Bueno, também decidiram encerrar as atividades. “Vou encerrar as atividades no dia 20 de abril, quando termina o contrato. Fica totalmente inviável permanecer trabalhando”, relatou.
A escola possui oito funcionários, entre professores, monitores e equipe de serviços gerais, além de familiares que também trabalham no local. Ela afirma ainda, que já tomou uma decisão difícil para evitar prejuízos maiores. “Já dei o aviso prévio porque tenho medo de esperar e gerar mais dívidas”, afirmou.
Pais questionam estrutura e distância
Entre os pais, a mudança também tem gerado preocupação. A mãe Luciana, que tem um bebê de 11 meses, relata que enfrentou horas na fila para conseguir uma vaga em uma escolinha próxima de casa. “Eu fui para a fila meia-noite e fiquei até sete ou oito da manhã para conseguir essa vaga”, contou.
O filho começou a frequentar a escola em janeiro e passou por um período de adaptação. “Sofri muito com a adaptação, porque ele ficava só comigo. Agora ele está adaptado e gosta da escolinha”, disse.
Para ela, a mudança significa começar todo o processo novamente. “Vai ser uma nova adaptação, e são mais de 400 crianças lá. A gente nem sabe quem vai cuidar dos nossos filhos”, afirmou.
Luciana também demonstra preocupação com a estrutura do local. “Pelo que vimos, não tem berço, não tem cadeira de alimentação, não tem ar-condicionado. Nem ventilador. Aquilo estava abandonado e agora querem colocar mais de 400 crianças lá”, disse.
A distância também preocupa. “Eu moro no Solar e trabalho na Vista Alegre. A escolinha perto de casa facilita muito. A gente jamais procuraria algo longe”, afirmou.
Ela diz que pretende evitar a mudança. “Vou fazer de tudo para não colocar meu filho lá”, declarou.
Debate segue no município
Enquanto a prefeitura afirma que o novo centro infantil representa um avanço na estrutura da educação municipal, pais e donos de escolas particulares pedem mais diálogo e planejamento na transição.
Com a previsão de transferência das crianças para o novo espaço em abril, o tema segue mobilizando famílias, profissionais da educação e autoridades em Palmeira das Missões.