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Futuro do Agro: Campo conectado exige produtor preparado

Avanço das tecnologias digitais no agronegócio cria novas oportunidades, mas também revela desafios de conectividade, capacitação e inclusão

A transformação digital já faz parte da rotina do agronegócio. Máquinas conectadas, drones, sensores, aplicativos e sistemas de gestão estão mudando a forma de produzir e administrar propriedades rurais. Nesse cenário, a integração entre inteligência artificial e letramento digital ganha espaço na chamada Agricultura 5.0.

O tema foi abordado em dois estudos desenvolvidos no Programa de Pós-Graduação em Agronegócios (PPGAGR) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Campus Palmeira das Missões. A mestranda Maria Isabel Gonçalves Silva investigou o papel do letramento digital no meio rural, enquanto o mestrando Pedro Henrique Silveira analisou os impactos e as perspectivas da inteligência artificial no agronegócio.

Embora tenham abordagens diferentes, as pesquisas convergem em um ponto: o futuro do agro dependerá não apenas das novas tecnologias, mas também da capacidade das pessoas de compreender e utilizar as informações geradas por elas.

Segundo Pedro Henrique, a inteligência artificial ganha espaço diante do desafio de ampliar a produção de alimentos para atender uma população mundial que poderá chegar a 10 bilhões de pessoas até 2050. A tecnologia permite processar grandes volumes de dados e auxiliar na tomada de decisões.

Essa evolução caracteriza a Agricultura 5.0, que vai além da mecanização e da automação ao integrar máquinas inteligentes e conhecimento humano. Entre as aplicações estão drones com visão computacional para identificação de pragas e doenças, sistemas de irrigação inteligente, monitoramento da saúde animal e apoio às decisões de plantio e colheita.

Conhecimento é essencial para acompanhar a tecnologia

Para Maria Isabel, ter acesso a máquinas modernas e sistemas digitais não é suficiente. O produtor também precisa desenvolver competências para interpretar informações e utilizar essas ferramentas na gestão da propriedade.

O letramento digital vai além do uso de celulares e aplicativos. Envolve autonomia para aprender, adaptar-se e utilizar os recursos tecnológicos de acordo com as necessidades do trabalho rural.

A digitalização também alcança atividades administrativas, como a emissão da Nota Fiscal Eletrônica e a utilização de sistemas de gestão. Dessa forma, a tecnologia passa a fazer parte de diferentes etapas da propriedade.

“O letramento digital não significa saber tudo sobre tecnologia, mas desenvolver autonomia para aprender, interpretar e utilizar os recursos digitais conforme as necessidades da propriedade”, destaca Maria Isabel.

A falta de infraestrutura digital continua sendo um dos principais obstáculos para a modernização do campo. Pedro Henrique destaca que cerca de 70% das propriedades rurais brasileiras ainda não possuem conectividade adequada, dificultando o uso de tecnologias que dependem da troca de dados em tempo real.

Além da infraestrutura, a capacitação também é essencial. Para os pesquisadores, não basta oferecer internet e equipamentos se os produtores não tiverem apoio para compreender e utilizar essas ferramentas.

Nesse processo, a Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), universidades e instituições de pesquisa podem aproximar o conhecimento tecnológico da realidade das propriedades e contribuir para a formação de novas competências.

Inteligência artificial amplia o trabalho, não substitui o produtor

Os estudos também alertam para o risco de a transformação digital ampliar desigualdades. Pequenos e médios produtores podem enfrentar dificuldades diante dos custos de equipamentos, limitações de infraestrutura e falta de capacitação.

A tecnologia, porém, também pode ser uma ferramenta de inclusão quando acompanhada de políticas públicas voltadas à conectividade, educação digital e assistência técnica.

Pedro Henrique utiliza o conceito de “aumentação”, no qual a tecnologia amplia a capacidade humana de análise e tomada de decisão, em vez de simplesmente substituir o produtor.

Assim, o futuro do agronegócio não será definido apenas por máquinas mais modernas ou sistemas mais inteligentes. Será também determinado pela formação de produtores preparados para atuar em um ambiente conectado e orientado por dados.

A inovação pode estar nos algoritmos, drones e sensores. Mas é o conhecimento humano que transforma informação em decisão e permite que a tecnologia contribua para o desenvolvimento, a inclusão e a sustentabilidade no campo.

Texto: Mariana Dal Forno

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