De trajetórias marcadas por dificuldades a conquistas dentro da sala de aula, Simone e Luana representam o compromisso de quem acredita no poder transformador do ensino
Celebrado em 15 de outubro, o Dia dos Professores é uma homenagem aos profissionais que se dedicam ao ensino, reforçando a importância daqueles que contribuem diariamente para a formação de cidadãos e para a transformação da sociedade. Em 1948, Antonieta de Barros, educadora e primeira mulher negra a assumir um mandato no Brasil, criou a lei estadual que instituiu o 15 de outubro como Dia dos Professores, em Santa Catarina. Quinze anos depois, a data foi oficializada em todo Brasil.
Em meio às mudanças vividas pela educação ao longo dos anos, histórias de professores ajudam a compreender o significado da profissão para além dos conteúdos ensinados em sala de aula. Em Palmeira das Missões, as trajetórias de Simone dos Santos Trentin, professora da rede estadual, e Luana Bueno dos Santos, da rede municipal, revelam caminhos diferentes, mas unidos pela persistência, pelo vínculo com os estudantes e pela convicção de que a educação pode abrir novas possibilidades de vida.
Simone Trentin: sala de aula é local de saberes compartilhados

Aos 57 anos, Simone dos Santos Trentin soma 33 anos de atuação na educação. Ela lembra que o caminho até a graduação exigiu esforço e determinação. O deslocamento até a faculdade, em Frederico Westphalen, era feito de Kombi, por estradas de chão, uma vez que não existia pavimentação no trajeto entre Palmeira e Boa Vista das Missões.
De origem humilde, ela precisou conciliar o trabalho e os estudos, mas com muita dedicação, Simone persistiu em seu sonho. Iniciou a carreira docente ainda durante a graduação, no Colégio Jesus Maria José, onde permaneceu por 16 anos e encontrou na prática diária a confirmação de sua escolha profissional.
Foi nesse período que descobriu, de maneira ainda mais profunda, o significado de ensinar. Entre as lembranças que guarda estão os encontros com antigos alunos que, anos depois, se tornaram médicos, dentistas, advogados e profissionais de diferentes áreas. Ser reconhecida por eles e perceber que fez parte de suas trajetórias é uma das recompensas que a professora destaca ao recordar sua caminhada.
A carreira também a levou à rede estadual, onde trabalhou na Escola Estadual Três Mártires e, posteriormente, na Escola Estadual Presidente João Goulart – CIEP. Nesta última instituição, permaneceu por 13 anos e viveu uma experiência que considera especialmente marcante: atuar junto a estudantes da periferia, conhecer suas realidades e contribuir não apenas para a aprendizagem, mas também para a comunidade escolar.
No CIEP, Simone também exerceu a função de diretora entre 2019 e 2021, período atravessado pela pandemia de Covid-19. A experiência trouxe desafios em um momento em que as escolas precisaram se adaptar a uma realidade inesperada. Apesar da passagem pela gestão, ela afirma que sua maior identificação continua sendo com a sala de aula, onde acompanha de perto o desenvolvimento dos estudantes.
Atualmente, a professora trabalha no Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos (NEEJA), atendendo pessoas que não tiveram a oportunidade de concluir os estudos na idade considerada regular. Ali, acompanha histórias de quem retorna à escola depois de anos afastado dos livros e que, muitas vezes, encontra no ensino uma nova possibilidade de construir o futuro.
Para Simone, é especialmente gratificante ver alunos concluírem a educação básica, ingressarem em cursos técnicos, prestarem concursos públicos e chegarem à universidade. Ela procura incentivá-los a continuar estudando e lembra que a experiência de vida acumulada por esses estudantes também enriquece as aulas. O aprendizado, segundo a professora, acontece nos dois sentidos: enquanto ensina, ela também aprende com as vivências de cada pessoa.
Essa troca é o que mantém vivo seu vínculo com a profissão. Simone descreve a sala de aula como um espaço de constante transformação, em que diferentes pensamentos e experiências se encontram. “O professor não deve se colocar como único detentor do conhecimento, mas estar disposto a compartilhar, dialogar e rever suas próprias ideias”, salienta ela.
Ao refletir sobre os desafios da educação, Simone aponta a valorização dos professores como uma das principais necessidades da área. Na avaliação dela, o reconhecimento precisa ir além das homenagens e incluir remuneração digna, condições adequadas de trabalho, formação continuada, respeito e autonomia pedagógica. Para a professora, investir nos profissionais da educação é investir no futuro da sociedade.
Luana Bueno: ensinar também é transformar realidades

A história de Luana Bueno dos Santos com a educação começou muito antes de sua formação profissional. Aos 34 anos, professora concursada da rede municipal e mãe solo de duas meninas, ela recorda que, aos quatro anos, começou a ler e escrever palavras curtas e se sentiu encantada com as descobertas do aprendizado.
Filha de uma família envolvida com a comunidade do Bairro Seis de Maio, onde nasceu e cresceu, Luana acompanhava de perto as atividades desenvolvidas na unidade de Apoio Socioeducativo em Meio Aberto (ASEMA), programa que atendia crianças no turno inverso ao da escola. “Pedi para meu pai um quadro para brincar de professora em casa. Com poucos recursos, ele improvisou usando um pedaço de porta pintado de preto”, lembra ela.
Ainda na infância, Luana enfrentou situações que nenhuma criança deveria vivenciar durante a vida escolar. Mulher negra, ela recorda episódios de exclusão, quando frequentemente ficava sozinha nos recreios e era a última escolhida para atividades em grupo. Mais tarde, durante o curso de magistério, também viveu a experiência de ser a única estudante negra da turma, uma realidade que marcou sua formação e reforçou sua determinação em seguir na educação.
Depois de concluir o magistério, cursou Pedagogia e especializou-se em Psicopedagogia Clínica e Institucional. A caminhada exigiu sacrifícios da família, que enfrentou dificuldades financeiras para viabilizar seus estudos. Ao longo de mais de 15 anos de atuação na rede pública, trabalhou em diferentes espaços e funções até conquistar o concurso público para professora de Educação Infantil, realização que considera um marco pessoal e também simbólico.
Atualmente, Luana trabalha com uma turma de Maternal 2 na Escola Daltro Fioravante dos Passos. É na primeira etapa da educação básica que ela encontra a oportunidade de acompanhar as descobertas e os primeiros aprendizados das crianças.
Entre as experiências que mais a marcaram está uma atividade sobre diversidade e identidade racial, realizada no início de sua trajetória como professora. Ao trabalhar a história “Menina bonita do laço de fita”, Luana aproveitou a oportunidade para discutir com as crianças a expressão “lápis cor de pele”, tradicionalmente associada a um tom bege ou pêssego.
A professora colocou o lápis próximo à pele de cada aluno e perguntou se aquela era, de fato, a cor de todos. Ao perceberem que o tom não correspondia à pele de ninguém da turma, as crianças foram convidadas a experimentar misturas de tintas para encontrar cores mais próximas das suas próprias características.
Mesmo depois de conquistar seu espaço na profissão, Luana ainda percebe olhares de dúvida e situações de preconceito por ser uma professora negra. “A presença de profissionais negros na educação é importante para ampliar a representatividade e mostrar às crianças diferentes possibilidades de identificação”, avalia ela. Por isso, cada conquista profissional tem um significado que ultrapassa sua trajetória individual.
Hoje, ao olhar para o caminho percorrido, Luana destaca as conquistas que vieram com o trabalho e a persistência, entre elas a possibilidade de proporcionar melhores condições de vida às filhas e conquistar a casa própria. Para ela, a educação foi fundamental para transformar sua realidade e continua sendo o caminho que deseja incentivar outras pessoas a seguir. Sua mensagem, especialmente à população negra, é de perseverança diante das dificuldades e de confiança no poder do estudo.
Texto e fotos: Priscila Devens