Mesmo diante da destruição, a esperança se mantém viva em cada gesto de ajuda
O temporal que atingiu Palmeira das Missões no dia 19 de fevereiro, entrou para a história como um dos mais devastadores dos últimos anos no município. A cidade, que já vinha enfrentando instabilidades climáticas, foi surpreendida por fortes ventos e chuvas torrenciais. Em poucos minutos, o vento arrancou telhados, derrubou postes e expôs a vulnerabilidade das casas. Bairros inteiros ficaram sem luz, sem água e mais de 900 casas comprometidas. O medo tomou conta. Famílias, já fragilizadas por questões sociais e de saúde, viram sua rotina virar de cabeça para baixo. Nos dias seguintes, a cidade passou a contabilizar os prejuízos, organizar uma força-tarefa e contar com a solidariedade da comunidade para reconstruir.
Reconstrução que ainda não começou
No bairro Promorar 2, a família de Odete ainda enfrenta as consequências do vendaval. Idosos e pessoas com necessidades especiais vivenciaram momentos de pânico e desespero. “Graças a Deus, estávamos em casa, mas começou a estourar, tipo de um foguete. As telhas começaram a voar e tudo ficou molhado, cobertores, roupas… foi um desespero”, contou Odete.
A situação da família se complica ainda mais devido ao estado de saúde dos moradores. Na residência vivem Otíbia, Marcos e Antonio Carlos; o filho é autista, o marido de Odete sofreu recentemente um acidente de bicicleta e agora enfrenta dificuldades de mobilidade, e a própria Odete lida com problemas cardíacos e depressão. “Hoje é difícil enfrentar o dia a dia. À noite, minhas pernas ficam dormentes de tanto correr dentro de casa”, desabafou.
Enquanto tentam reconstruir a rotina, a família ainda aguarda ajuda. O auxílio da prefeitura chegou apenas para o fornecimento de telhas, mas a instalação ainda não foi possível. “Meu marido não consegue subir para colocar as telhas, e ninguém ainda veio nos ajudar”, lamentou.
Com partes da casa expostas à chuva, o filho dorme no sofá, o marido em uma cadeira, e Odete se divide entre sua cama e a da mãe, que, por sorte, não foi atingida. Além disso, enfrentaram falta de luz e água por uma noite inteira, aumentando ainda mais o impacto do temporal.
O drama de Beloni
No bairro Batista, Dona Beloni também sofreu com o temporal. Sozinha com os netos, viu a força do vento levantar sua casa. “Eu já sabia como estava a situação da minha casa, com a cobertura e a madeira já podres. Quando vi o vento levantar, fiquei com medo de ficar lá e corri para a casa dos meus filhos”, contou, emocionada.
Enquanto isso, vizinhos assistiam as telhas sendo arrancadas e levadas pelos ventos. “Minha vizinha disse que a minha casa levantava toda para cima e depois caía, parecia que ia voar inteira”, relembrou.
A prefeitura forneceu algumas telhas, mas Beloni ainda precisa de mais para cobrir completamente o telhado. “Eles trouxeram 15 folhas finas e 4 grossas, mas ainda vai faltar. Já coloquei lona sobre todos os cômodos para não molhar o que restou”, explicou. A reconstrução depende também de mão de obra, que ela ainda não consegue providenciar sozinha.
Mesmo diante das dificuldades, a família mantém a gratidão. “Agradeço à reportagem por vir até aqui e também à prefeitura que está tentando nos ajudar. Espero que aos poucos tudo volte ao normal”, disse.
Solidariedade em ação
No bairro Westphalen, Adnilson Brizola viu toda a parte superior de sua casa ser arrancada pelo vendaval, com pedaços do telhado voando sobre residências vizinhas. “Quando o vento levantou, parecia que tudo ia embora. Uma vizinha disse que viu a telha levantar e repetir, como se quisesse levar todo o telhado”, lembra.
Apesar da devastação, ninguém se feriu. O maior impacto foi material, móveis molharam, a caixa d’água estourou e a água desceu pelos cômodos. “Ficamos em choque ao ver tudo o que construímos nesse estado. Alguns momentos são de desânimo, é normal. Mas, quando consegui abraçar minha filha que saía do colégio no momento do temporal, percebi que o mais importante estava intacto, nossa família está bem”, relatou.
Entre perdas materiais, destacou-se a solidariedade da comunidade. “Pessoas ligando, oferecendo ajuda, emprestando espaço em casa, trazendo material, isso foi o que mais nos confortou. No meio de todo esse estrago, ver a união e o carinho das pessoas foi o que mais nos marcou”, afirmou.
Recuperação e apoio da prefeitura
A cidade segue em processo de recuperação após o vendaval. Até quarta-feira, 24, cerca de 11 mil telhas já haviam sido entregues às famílias mais afetadas. A distribuição ocorre no Parque de Exposições, com prioridade para os moradores cadastrados no CAD Único do município.
Anteriormente, a entrega era feita mediante agendamento pelo CRAS, mas atualmente o material está sendo destinado com prioridade às famílias cadastradas no CAD Único. A logística foi reorganizada: equipes da engenharia e do CRAS realizam a entrega diretamente nas residências das famílias mais vulneráveis.
“As telhas são destinadas exclusivamente para moradias que sofreram danos e correm risco de desabamento, não para galpões ou fundos de garagem”, explicou o secretário da Secretaria de Obras e Serviços Essenciais, Vergilio Matias.
Solidariedade como força motriz
Entre o medo do temporal, a destruição das casas e a incerteza sobre os próximos dias, o que permanece é a resiliência dessas famílias. A tragédia deixou marcas profundas, mas também despertou gestos de solidariedade por toda a comunidade. Cada telha entregue, cada ajuda oferecida, simboliza a esperança de que, mesmo após o vento e a chuva, a vida pode ser reconstruída.
Apesar do impacto devastador, os relatos mostram que a união faz toda a diferença. Amigos, vizinhos e parentes se mobilizaram para apoiar quem perdeu tudo. Para muitas famílias, os móveis e os bens materiais tornaram-se secundários diante da certeza de que todos estão seguros.
O vendaval de 19 de fevereiro em Palmeira das Missões não deixou apenas destruição: revelou a força da resiliência, a empatia e a solidariedade de uma cidade inteira, determinada a reconstruir suas casas e proteger quem ama.