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Planejar a herança é importante, mas planejar a vida é indispensável

Por Carolina Paaz, sócia fundadora da Irion Advogados e Mestre em Direito

Nos últimos meses, uma história tem me acompanhado como aquelas reflexões silenciosas que insistem em voltar quando menos esperamos. Trata-se de um caso que, embora específico, carrega um retrato muito preciso do comportamento brasileiro diante da velhice, da fragilidade e do futuro. E, quanto mais penso nele, mais percebo que lidamos com um paradoxo cultural muito nosso: o brasileiro não planeja a herança e tampouco planeja a vida, não por descuido isolado, mas porque simplesmente não é cultural.

A protagonista dessa história era uma senhora de patrimônio significativo, com imóveis bem localizados, aplicações financeiras e bens construídos ao longo de décadas de trabalho. Não tinha filhos, mas tinha sobrinhos, amigos próximos e uma vida social que lhe dava sensação de pertencimento e segurança. Preocupada com o destino de tudo o que conquistou, dedicou tempo e energia a elaborar um testamento detalhado, distribuindo quinhões entre amigos queridos e reconhecendo, com generosidade, as pessoas que fizeram parte da sua jornada.

No entanto, ela se ocupou exclusivamente do que aconteceria após a sua morte, sem refletir sobre o que poderia ocorrer antes dela. Quando a saúde lhe faltou e a autonomia se esvaiu, o planejamento minucioso do depois revelou um enorme vazio no durante.

Debilitada, sem capacidade de decidir e sem qualquer documento que expressasse suas vontades para aquela fase da vida, viu suas decisões transferidas a um sobrinho distante, nomeado curador pela ausência de mecanismos jurídicos previamente estabelecidos. Foi nesse momento que sua vida deu uma guinada brusca. O sobrinho, embora talvez bem-intencionado, não tinha proximidade afetiva, sensibilidade ou preparo. Colocou-a em uma clínica muito inferior às possibilidades econômicas que ela havia construído, restringiu visitas e passou a administrar sua rotina como quem administra um inventário antecipado, priorizando economia onde deveria existir cuidado.

A verdade é que, embora ela tenha deixado bens, amigos e um testamento afetuoso, seus últimos anos não foram felizes. E não foram porque faltou aquilo que ninguém a ensinou a fazer: planejar não apenas a destinação final do patrimônio, mas principalmente o uso dele em benefício da própria dignidade enquanto viva.

Esse caso poderia ter sido completamente diferente. Poderia ter havido uma diretiva de vontade, uma indicação formal de quem deveria tomar decisões de saúde, ou uma orientação expressa sobre como seus recursos deveriam financiar uma clínica de alto padrão, cuidadores em casa, tratamentos específicos ou qualquer outra escolha pessoal. Poderia ter havido uma procuração preventiva, um mandato duradouro ou até mesmo uma organização patrimonial mais abrangente construída com a orientação de especialistas capazes de enxergar o futuro jurídico onde o cidadão comum vê apenas o presente imediato.

É importante lembrar que a holding familiar costuma aparecer como a solução mais comentada, mas ela é apenas um dos caminhos possíveis. Planejamento sucessório e planejamento de vida exigem uma combinação de instrumentos jurídicos, financeiros e patrimoniais que variam conforme a história de cada pessoa. Não existe uma fórmula única e, por isso mesmo, a presença de profissionais especializados não é luxo. É necessidade. São eles que conseguem antecipar riscos invisíveis, proteger vontades, reduzir conflitos e garantir que o patrimônio esteja a serviço da pessoa que o construiu.

O brasileiro, entretanto, ainda evita falar sobre velhice, incapacidade, dependência e morte. Considera o tema mórbido, distante ou desnecessário. Prefere confiar em expressões como “deixa para depois” ou “quando chegar a hora, a gente vê”. E assim seguimos improvisando justamente na etapa mais delicada da existência. Enquanto outros países tratam diretivas médicas, mandatos preventivos, testamentos vitais e planejamento patrimonial como parte natural da vida adulta, nós continuamos associando tudo isso à má sorte, quando, na prática, é a falta de planejamento que atrai verdadeiras tragédias silenciosas.

A história dessa senhora é um lembrete poderoso de que planejar não é apenas uma prática jurídica. É um gesto de amor próprio. Herança é importante, mas garantir que os últimos anos sejam vividos com dignidade, conforto e respeito é ainda mais. O patrimônio deve servir primeiro ao bem-estar de quem o construiu e só depois ao destino pós vida que essa pessoa deseja estabelec

E talvez a grande pergunta que fique seja esta: se você não decidir hoje como quer viver o amanhã, quem decidirá por você?

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