“Quem não tem o Natal no coração jamais vai encontrá-lo embaixo da árvore.”
Roy L. Smith
Carolina Paaz/Mestre em Direito | Sócia-fundadora da Irion Advogados Associados
Não lembro que idade eu tinha quando vi minha primeira árvore de Natal. Mas lembro, com uma nitidez quase física, do encanto. Era dezembro, e havia um dia esperado com ansiedade: o dia em que meu pai ia até a granja escolher o pinheirinho mais bonito que existisse por lá. Nossa casa tinha pé-direito alto, e a árvore precisava acompanhar essa altura, quase tocar o teto, como quem tenta alcançar as estrelas. A porta era larga, mas o pinheiro passava apertado, sem resistência, como se soubesse que aquele também era o seu lugar.
Pertinho do Natal, lá vinha meu pai, o mesmo que dizia achar bobagem comprar presentes de Natal, mas fazia questão de escolher a árvore mais linda. Enfeitávamos com bolas de vidro, frágeis e delicadas, que quebravam com facilidade. Por isso, pendurá-las exigia cuidado, quase reverência. No nosso Natal não existia frio; ainda assim, comprávamos sacos e mais sacos de algodão para imitar a neve do lugar onde meu pai morou quando criança, uma neve branca e leve, criada pela imaginação da infância.
Enquanto escrevo, quase posso sentir o cheiro daquele pinheiro tomando conta da casa. Um cheiro verde, vivo, intenso. Eu e meus irmãos colocávamos as bolinhas na árvore e ficávamos com os pequenos braços marcados pelos galhos pontudos do pinheiro. Coçava, ardia, incomodava. Mas ninguém reclamava. Aquele desconforto também fazia parte da magia. Era um Natal que se sentia não apenas na alma, mas também no corpo.
A gente se apressava para encher a árvore de luzes coloridas. Havia sons: o farfalhar dos galhos, o clique das lâmpadas se acendendo, vozes baixas, risos contidos. Meu pai sentava ao lado, em silêncio, apenas para admirar. Não elogiava muito. Falava pouco. Mas ficava ali, por horas.
E aquele silêncio dizia tudo.
Nos dias que se seguiam, eu entrava nas casas dos vizinhos movida apenas pelo encanto das árvores. Cada casa tinha uma luz diferente, um jeito próprio de enfeitar, um cuidado particular. As portas se abriam, os cumprimentos vinham cheios de sorriso, e o brilho das árvores parecia se espalhar pela rua inteira. O Natal não morava apenas dentro da nossa casa. Ele caminhava pela vizinhança, criando um clima bonito de pertencimento.
Meu pai dizia que, quando criança, quase nunca ganhava presentes de Natal. Contava isso sem tristeza, como quem já tinha feito as pazes com o tempo. A árvore, no entanto, sempre existia, nas casas pequenas e nas grandes, dizia ele, e talvez fosse ali que morasse a magia do Natal que guardava no coração. Era diante dela que ele parecia reencontrar algo que a vida, com seus anos apressados, não conseguiu levar.
Com a gente, era diferente. O Papai Noel sempre chegava trazendo os lindos pacotes verdes da Meluchinha. Havia um brilho especial nos nossos olhos, um encantamento quase impossível de conter. Eu e meus irmãos tentávamos espiar pelas frestas, curiosos, querendo adivinhar, antes da hora, o que havia ali dentro. Meu pai observava tudo em silêncio, como quem já sabia que o mais importante não estava no pacote, mas naquele instante compartilhado.
Hoje, as bolas de Natal já não se quebram mais. As luzes ficaram mais brancas. O pinheiro não é mais natural, e o cheiro do Natal já não toma conta da minha sala. Eles também não estão mais aqui, meus avós, meu pai. “A vida passa rápido”, dizia ele. E passa. Mas nem tudo vai embora.
Há imagens e cheiros que retornam quando abro a janela, olho para o céu e deixo o vento tocar a pele, enquanto uma lágrima desce devagar. Saudade é o nome que o amor recebe quando decide ficar, como diria o poeta.
Apesar das ausências das pessoas que amamos, que o Natal seja sempre um tempo de lembrar os infinitos: as nossas histórias, os vínculos que permanecem e o sopro divino que acalma o coração. Que o mistério do nascimento de Jesus nos devolva a ternura pela vida, a coragem de renascer a cada superação e o aprendizado silencioso da gratidão. Que Ele não nos torne imunes ao sofrimento, mas nos conceda a força necessária para atravessá-lo, aprender com ele e seguir adiante com fé, dignidade e amor. Porque, no fim, o Natal não mora apenas sob a árvore: ele permanece onde a alma encontra abrigo.