Por Fernanda Romitti
Historiadora, curadora de moda e crítica de estilo
Já deu pra perceber que a moda incomoda?
E nem sempre o desconforto vem do tecido áspero, do salto alto ou da roupa apertada demais. Às vezes, o incômodo vem do olhar. Do olhar dos outros, e principalmente, do nosso. A moda tem esse poder curioso, o de provocar, desafiar e cutucar aquilo que a gente tenta esconder. Ela mexe com o ego, com o gosto e, sobretudo, com a nossa zona de conforto.
De repente, uma cor “errada” aparece, uma silhueta “estranha” ganha espaço, um estilo “diferente” rouba a cena. E o incômodo vem. Porque é justamente ali, nesse ponto onde algo parece fora do lugar, que mora a verdadeira moda, aquela que nasce das frestas entre o gosto e o desgosto, entre o aplauso e o julgamento.
A moda que incomoda é a que faz pensar. É a que provoca uma pausa, um questionamento, um segundo olhar. É aquela que faz a gente se olhar no espelho e se perguntar, o que é realmente meu estilo e o que é apenas convenção? O que eu visto porque gosto e o que eu visto porque esperam que eu goste?
No fundo, esse desconforto é uma oportunidade. É um convite à mudança, à autenticidade, à ousadia. Porque, no fim das contas, o incômodo é só o começo de uma transformação. E não há nada mais elegante, mais verdadeiro e mais poderoso do que evoluir, por dentro e por fora.