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O trabalho que liga o campo, a estrada e o desenvolvimento

Comemorado no dia 25 de julho, o Dia do Colono e do Motorista celebra duas profissões fundamentais para a economia brasileira, sendo um responsável por produzir alimentos a partir do solo e o outro por garantir o transporte dessas riquezas, conectando o campo com a cidade. No caso dos motoristas, a data se refere a São Cristóvão, padroeiro dos viajantes e para os colonos é uma referência à chegada dos primeiros imigrantes.

Em Palmeira das Missões, cerca de mil pessoas atuam como motoristas de caminhão, como comenta o diretor e sócio do Grupo Autônomo de Transporte (GAT), Reginaldo dos Santos Vargas, acrescentando ainda que apenas duas são mulheres. As cargas que saem de Palmeira são de soja, trigo e milho e os principais destinos são o Porto de Rio Grande e a Serra Gaúcha. No Rio Grande do Sul, em 2025, mais de 80 mil pessoas atuavam como motoristas do transporte de cargas, sendo 1,14% mulheres, conforme dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Já no campo, a produção agropecuária eleva o Valor Adicionado Bruto (VAB) de Palmeira das Missões, além de movimentar o comércio de sementes, insumos, máquinas e serviços, como observa o extensionista rural da Emater/RS-Ascar, Maurício Stochero. O município possui 3.449 moradores na área rural, distribuídos em mais de 2,2 mil propriedades, em quatro distritos e quatro assentamentos, de acordo com dados da Emater. A produção é liderada pela soja, cultivada em cerca de 110 mil hectares, seguida pelo trigo, milho e pela expansão da canola. Nas pequenas propriedades, a produção leiteira, as hortaliças e o processamento artesanal complementam a renda das famílias, como explica o secretário municipal de Agricultura e Pecuária, Orlei Azeredo.

Força da agricultura familiar

O amor pela agricultura acompanha Elisiane Covaleski Ihme desde a infância. Filha de agricultores, ela cresceu vendo os pais dedicarem a vida à terra e aprendeu cedo que a propriedade rural representa muito mais do que um local de trabalho: é a fonte de sustento, de aprendizado e de união familiar.

Há 24 anos casada com Valmor Jorge Ihme, enfrentam juntos os desafios da atividade rural, como as oscilações climáticas, as dificuldades do mercado, os altos custos de produção e as mudanças nas políticas voltadas ao setor. “Permanecer no campo é uma escolha corajosa. Herdar a terra não significa apenas recebê-la, mas trabalhar nela todos os dias”, ressalta.

Entre tantas histórias vividas, uma delas permanece especial na memória da família. Aos 38 anos, Elisiane e Valmor, que moram na Esquina São Bento, decidiram voltar a estudar e ingressaram no curso técnico da Escola Estadual Técnica Celeste Gobbato. Em uma sala repleta de jovens, chamavam a atenção por serem os alunos mais velhos. “O dia começava antes do amanhecer, com a ordenha das vacas, depois seguíamos para a escola. À noite, ainda havia os afazeres domésticos e os estudos”, lembra ela, acrescentando que quando as demandas da propriedade exigiam, era preciso faltar às aulas para garantir o andamento da produção.

A vida no campo sempre foi compartilhada por toda a família. Quando os filhos eram pequenos, acompanhavam os pais na lavoura. Conforme os maquinários foram sendo renovados, a prioridade era adquirir tratores com cabine, permitindo que as crianças viajassem junto durante o trabalho.

Hoje, a filha mais velha, Iriane, de 23 anos, formou-se professora, casou-se e construiu sua própria vida em Dois Irmãos das Missões. Já o filho Walmor August, de 17 anos, segue os passos dos pais e estuda justamente na Escola Agrícola onde eles cursaram o técnico. A caçula, Elisy Alvina, de seis anos, continua acompanhando a rotina da família na propriedade.

Um diagnóstico que mudou tudo

Entre tantas batalhas, Elisiane também enfrentou um dos momentos mais difíceis de sua vida ao descobrir um câncer no colo do útero. O diagnóstico trouxe medo e insegurança para toda a família. “A gente pensa que câncer é uma sentença. Foi um baque muito forte”, observa.

Após o tratamento e a cirurgia, veio o alívio. O problema foi resolvido e, recuperada, ela retomou a rotina na propriedade ao lado da família. Hoje, Elisiane continua dividindo as tarefas com o marido. Enquanto um está na lavoura, o outro assume os trabalhos da casa. Quando necessário, ambos trocam de função, mostrando que a parceria sempre foi um dos pilares da família.

Para ela, a agricultura é construída com trabalho coletivo, perseverança e fé. “A união da família é o que dá força para continuar. Agradecemos a Deus por nunca nos deixar desistir”, conclui. No Dia do Colono, a trajetória de Elisiane e Valmor representa milhares de famílias que fazem da terra seu modo de vida. Histórias de coragem, superação e dedicação que atravessam gerações e mantêm viva a agricultura familiar, transformando o campo em um verdadeiro legado de trabalho e esperança.

Do sonho de infância à boleia do caminhão

Por oito anos Ivania Cristina Bertoncello, moradora de Novo Barreiro, percorreu rodovias de diferentes estados brasileiros conduzindo caminhões carregados de grãos e fertilizantes. Filha de caminhoneiro, ela cresceu admirando os veículos que cruzavam as estradas e alimentando um sonho que, na época, parecia distante. “Naquele tempo era bem mais raro ver uma mulher dirigindo um caminhão”, relembra.

A oportunidade surgiu aos 27 anos, pouco tempo depois de conhecer o marido, que também é caminhoneiro. Primeiro, passou a acompanhá-lo nas viagens e cerca de dois meses depois, conquistou uma vaga na mesma empresa onde ele trabalhava. Os dois viajavam pelo país, cada um conduzindo seu próprio caminhão, mas nem sempre as rotas coincidiam. Durante os anos na profissão, Ivania percorreu os três estados do Sul, além de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e o interior de São Paulo.

Apesar da realização, o começo foi marcado por desafios. “No início não foi fácil. Eu tinha muita insegurança por não ter experiência e por não conhecer os destinos. Também chamava atenção por ser mulher em um ambiente onde quase não havia caminhoneiras”, desabafa. Segundo ela, a presença feminina despertava curiosidade. Em muitos locais, pessoas se aproximavam para conversar, fazer perguntas e conhecer um pouco mais da rotina de uma mulher na boleia de um caminhão.

Os desafios de quem vive para a estrada

Hoje, aos 38 anos, ela já não está mais atrás do volante, mas continua ligada ao transporte rodoviário, atuando como gestora de frota. Há dois anos, após o nascimento da filha Mariê, decidiu deixar a rotina das viagens para estar mais próxima da família. Ela permaneceu trabalhando até o oitavo mês de gravidez, sempre contando com o apoio do marido. “Mesmo não sendo simples encerrar esse ciclo, não pretendo voltar às viagens por enquanto. Além da filha pequena, quero estar mais presente para os meus pais”, comenta.

Estar na estrada exige abrir mão de uma rotina convencional, como explica Ivania. Horários de refeições, banho e descanso mudam constantemente, enquanto a distância da família passa a fazer parte do cotidiano. “Embora fosse cansativo, pilotar um caminhão era fascinante, mas tem que gostar de estar fora de casa. Muitos me diziam que eu jamais largaria o caminhão, afinal isso prende quem é aventureiro, mas pela minha filha eu parei”, esclarece.  

Por conhecer de perto os desafios da profissão, Ivania não incentivaria a filha a seguir seus passos, mas garante que apoiaria qualquer decisão. “Ser caminhoneira é para quem tem coragem. Não faria questão que ela seguisse esse caminho, porque é uma profissão que tira muito da gente, principalmente o convívio com a família. A gente acaba sendo uma pessoa ausente”.

Ainda assim, ao olhar para trás, Ivania resume os anos na estrada como uma das experiências mais marcantes da sua vida. “Fazer parte de um setor que move um país e, ao mesmo tempo, trabalhar com o que se ama não tem preço”. E deixa uma homenagem a quem mantém o Brasil em movimento: “Colonos e motoristas, vocês são, sim, quem faz o nosso Brasil girar”.

Fotos: Arquivo familiar

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