Nos últimos meses, a população de Palmeira das Missões tem enfrentado constantes problemas quanto ao abastecimento de água, serviço realizado pela empresa – privatizada desde 2023 – Corsan/Aegea. Empresários e moradores relatam que interrupções frequentes no fornecimento e episódios de água turva têm ocasionado diversos prejuízos.
Contudo, as reclamações deixaram de ser apenas manifestações nas redes sociais e passaram a mobilizar diferentes órgãos públicos. Em maio, a Câmara de Vereadores realizou uma audiência pública para discutir estes problemas, criando também a Frente Parlamentar em Defesa dos Usuários dos Serviços de Água e Saneamento, para fiscalizar a execução do contrato da concessionária, acompanhar a qualidade dos serviços, receber denúncias da população e propor soluções para os problemas identificados.
Representantes da Frente também participaram de reunião na Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados (AGERGS) apresentando várias demandas relacionadas ao serviço. Segundo o presidente da Frente Parlamentar, o vereador Antônio Vezaro, o próximo passo será protocolar junto ao Ministério Público um relatório reunindo mais de 70 páginas de documentos e relatos, além de levar o material diretamente à direção estadual da Corsan, em Porto Alegre.
Rotina afetada
Para quem depende diretamente da água para trabalhar, as interrupções representam prejuízo imediato. Proprietário de uma lavagem de veículos no centro da cidade, Adilson Croda Nogueira afirma que a situação se tornou preocupante. “Quando falta água não tem como atender e no fim do mês as contas vão se acumulando”, resume.
No setor de beleza, a situação também afeta diretamente o atendimento. Carolina Machado de Souza, proprietária de um salão de beleza, conta que já precisou desmarcar os clientes. “Prejudica todo mundo. Se não tem água, não conseguimos trabalhar”, lamenta ela.
Investir em reservatórios foi a estratégia adotada pela proprietária da De Freitas Centro Automotivo, Laira Pimentel. “Hoje conseguimos manter o atendimento, mas o problema maior acontece quando o abastecimento retorna e entra muito ar na tubulação. O hidrômetro gira por causa da pressão, mesmo sem passar água e nós ficamos preocupados com a possível cobrança indevida”.
Água turva causa prejuízo em eletrodomésticos
Além da falta de água, moradores também relatam episódios em que o abastecimento foi restabelecido com água turva e grande quantidade de sedimentos. Um morador do bairro Vista Alegre, que preferiu não se identificar, afirma que sua máquina de lavar roupas foi danificada pela sujeira da água.
Segundo ele, a quantidade de terra era tão grande que ultrapassou o filtro do equipamento, entupiu a bomba e todo o sistema interno da máquina. “O conserto ficou em mais de R$600, pois tivemos que trocar mangueiras e parte do sistema hidráulico da máquina”, lembra ele. Na mesma residência, uma máquina de lavar louças também apresentou problemas. O equipamento precisou passar por limpeza após a bomba ficar obstruída por sedimentos presentes na água.
Vigilância Sanitária notificou Corsan por alterações na água
A Vigilância Sanitária de Palmeira das Missões identificou alterações em parte das análises mensais realizadas para o monitoramento da qualidade da água para consumo humano. Segundo o fiscal sanitário Alison Costa, a primeira notificação foi encaminhada à Corsan após análises realizadas em maio apontarem redução do cloro residual no bairro Félix, além de níveis de flúor abaixo do recomendado pela legislação em diversos bairros como Lutz, Cohab, Mutirão, Santa Catarina e Félix. O recomendado para os níveis de flúor é de 0,6 a 0,9 mg/L, e no bairro Félix, por exemplo, estava 0,1 mg/L nas amostras de maio.
Uma segunda notificação foi realizada, no mês de junho, após as análises identificarem novamente baixo teor de flúor e cloro. De acordo com Alison, os bairros mais afastados da Estação de Tratamento de Água (ETA) tendem a apresentar maior redução no teor desses componentes que indicam a qualidade da água. Apesar das notificações, o fiscal destaca que não foram identificadas alterações na turbidez durante as coletas oficiais nem presença de Escherichia coli ou coliformes totais, mantendo a água dentro dos parâmetros de potabilidade.
Após receber as notificações, a Corsan apresentou resposta técnica e informou ter realizado correções nos pontos indicados. Segundo a Vigilância Sanitária, praticamente todos os parâmetros foram regularizados, permanecendo apenas um ponto na Vila Pinto, ainda em processo de ajuste do teor de flúor.
Em entrevista à reportagem, o gerente de Relações Institucionais da Corsan para a Região Central, Éliton Rodrigues, explica que uma das características da água e dos produtos utilizados no tratamento é a volatilidade, ou seja, várias situações influenciam na alteração dos parâmetros da qualidade da água ao longo de toda a rede de distribuição, como a manutenção e rompimentos da rede. “Os níveis de cloro e flúor verificados na ETA não são os mesmos encontrados na torneira mais distante da Estação. Porém, o que é mais importante é que nenhuma amostra de água foi dada como imprópria para consumo”, pondera ele, acrescentando que a Corsan realiza 300 análises da água todos os dias.
Corsan reconhece transtornos e aponta causas
Éliton Rodrigues, gerente de Relações Institucionais da Corsan, reconhece que a sequência de falta de água provocou transtornos à população. Segundo ele, diferentes fatores contribuíram para as interrupções registradas nos últimos meses, entre eles quedas de energia elétrica, rompimentos de tubulações por terceiros, falha no equipamento de telemetria – que monitora a operação da Corsan à distância – e o elevado volume de chuvas.
Rodrigues ressalta que, durante períodos de chuva intensa, a água captada no Rio Macaco chega com maior quantidade de sedimentos, exigindo redução da captação para evitar danos às bombas da estação. Além disso, quando ocorrem interrupções prolongadas no fornecimento de energia, a estação deixa de receber água suficiente para manter o tratamento, comprometendo o abastecimento da cidade.
O gerente informou que a instalação de um gerador de energia fixo para Palmeira das Missões faz parte do plano de melhorias da companhia. Atualmente, a unidade conta apenas com um gerador móvel, utilizado quando a concessionária de energia informa que a interrupção deverá durar mais de quatro horas. Outra medida adotada recentemente foi a substituição do equipamento responsável pelo sistema de telemetria da ETA por um modelo mais moderno. “Sempre que ocorre alguma oscilação ou interrupção no fornecimento da água o Centro de Operações Integradas (COI), em Porto Alegre, aciona automaticamente as nossas equipes”, explica ele, acrescentando que a empresa busca tornar o tempo resposta mais rápido possível.
Água turva e ar na tubulação
Questionado sobre a entrada de ar na tubulação, o gerente afirma que o hidrômetro pode apresentar movimento visual quando há passagem de ar, mas garante que o equipamento registra o consumo apenas quando há passagem efetiva de água.
Sobre os relatos de turbidez na água após o retorno do abastecimento, Rodrigues salienta que a empresa realiza o processo de expurgo da rede para eliminar os detritos. Mas, segundo ele, a falta de padronização das tubulações contribuem para que os sedimentos permaneçam no encanamento.
A orientação é que moradores que identificarem água com coloração alterada entrem em contato pelos canais oficiais da companhia, como o aplicativo Corsan, o site cliente.corsan.com.br, WhatsApp e ligações gratuitas pelo 0800.646.6444 ou videochamadas no site corsan.com.br. Nesses casos, uma equipe deverá ir até a residência e realizar a limpeza da rede interna do imóvel, sem custo ao consumidor. A mesma indicação é feita para os casos de prejuízos em eletrodomésticos, que serão analisados individualmente, de acordo com os procedimentos estabelecidos pela companhia e pela legislação vigente.
Reportagem: Priscila Devens
Foto: Josemar Martins