Evasão escolar preocupa gestores

por Pedro Niácome, 18/09/2015 às 08:56 em Especial

A EDUCAÇÃO NO CAMPO

Poucos alunos e um amontoado de cadeiras no canto da sala de aula. A realidade das escolas públicas do interior do País também se estende a Palmeira das Missões. A equipe do Jornal Tribuna da Produção visitou quatro escolas da rede municipal de ensino da zona rural e constatou uma redução no número de estudantes.

 A permanência dos alunos na escola é um dos grandes desafios da educação. Atualmente são sete as escolas da rede municipal localizadas no interior. Com exceção do educandário Ignácio Montanha, distrito de São Bento, todos os demais demonstram preocupação com a evasão escolar. E não é por falta de incentivo e estrutura de ensino. Em todas as escolas visitadas há transportes para os alunos, professores, material didático, livros e merenda escolar. 

Mas afinal, quais são os motivos para o aumento da evasão escolar? As causas são variadas, perpassando desde as condições socioeconômicas até mesmo geográficas. Outros fatores determinantes são o trabalho infantil e a gravidez na adolescência. A evasão escolar é um fenômeno que reflete negativamente na educação, principalmente, nos investimentos desta área, pois onera os recursos a ela destinados. Basta considerar aspectos como o custo de uma sala de aula completa com 30 alunos, que é o mesmo de uma com apenas 10, quando 20 são evasores. Será que essas escolas conseguirão se manter ativas nos próximos anos? Qual o futuro da educação no interior? 

Dom João XI

Das escolas fora da cidade, a mais próxima é a Dom João XI. Atualmente são 109 alunos, do pré ao 9º ano. A escola acolhe estudantes dos bairros Promorar, Franco I e II, Esperança e Potreiro Bonito. De acordo com a diretora Maria Portela, a escola vem evoluindo nos últimos anos, com implementação de oficinas e formação de professores. Mesmo mantendo o patamar satisfatório de alunos, a evasão escolar preocupa a gestora. “É uma tendência observada nos últimos anos. A evasão acontece de forma peculiar, na maioria das vezes em decorrências de problemas familiares. Nesses casos o Cras tem uma importante parcela de contribuição”. Recentemente a escola teve os banheiros reformados. Possui ainda área de recreação e uma horta, cuidada pelos próprios alunos. A merenda tem acompanhamento de nutricionistas, e segundo os alunos, é satisfatória.  A escola deixa a desejar nos quesitos acessibilidade, salas da aula, pátio e área para atividades física. A escola não possui quadra de esportes, e os estudantes realizam as atividades no ginásio da Funcopalma. Existem computadores a disposição dos alunos, mas o sinal da internet é limitado. Improvisação também dos espaços da biblioteca, sala de professores e jogos recreativos.  

Almirante Tamandaré

Localizada no Passo Raso, a Escola Almirante Tamandaré acolhe 70 alunos, e é uma das unidades que mais tem sentido impacto decorrente da evasão escolar. Há três anos, a escola contava com 115 alunos. Ou seja, uma redução de aproximadamente 65%. Conforme a diretora, Marcela Schons, muitas famílias estão deixando o campo para morar na cidade e em outras localidades. “O êxodo rural não tem a mesma proporção de décadas atrás, mas ainda existe, além da mudança estrutural das famílias, hoje com menos filhos. Todos os alunos são oriundos da localidade”. Atualmente são 14 professores e 3 funcionários. Uma das maiores dificuldades, conforme a diretora, é o corte no repasse de recursos por parte do Governo Federal, através do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), e que vem comprometendo a realização de programas a exemplo do Mais Educação. Por parte da Secretaria Municipal de Educação, a queixa maior é com relação a limitação de funcionários para execução reparos na estrutura física. “A secretaria tem apenas dois servidores para atender todas as escolas no município. Muitas vezes precisamos fazer reparos, a exemplo da instalação de bebedouros para os alunos, e não temos a dispor”. A limitação de espaços é outro problema na escola. A escola tem aproximadamente 10 computadores, mas não tem uma sala específica para instalação, muitos menos sinal de internet. A sala de informática está desativada há dois anos. A escola aguarda a aprovação de projetos para construção de uma quadra poliesportiva, uma biblioteca e mais uma sala de aula. Recentemente a escola, com a colaboração de pais, construí o DTG (Departamento de Tradição Gaúcha) Sentinela dos Ervais, onde são desenvolvidas diversas atividades culturais e onde também é servida a merenda escolar, já que a mesma não possui refeitório. Há um ônibus a disposição da escola, no entanto não há coleta de lixo e aparato para pessoas com deficiência. O estudante Wanderley Tonietro, 11 anos, conta que gosta da escola, mas lamenta a ausência de uma quadra para jogar futebol e acesso a informática. “Os computadores nos ajudaria a fazer pesquisa, assim como uma quadra para jogar com os colegas”. A educação física é realizada em um campinho cercado de mato ao lado da escola.

Duque de Caxias

Fundada em 1978, a Escola Duque de Caxias, distrito de Santa Terezinha tem hoje 103 alunos, e mesmo não tendo apresentado casos de evasão no decorrente ano, lidera o ranking municipal de evasões. Nos últimos três anos, a taxa de redução alcançou o patamar de 80%. De acordo com a diretora Salete Sanjiovo, as famílias passaram a ter menos filhos, e muitas famílias migraram para as cidades em busca de trabalho. Salete conta que o maior anseio da escola está próximo de tornar-se realidade. A quadra poliesportiva da escola está em construção e em breve trará inúmeros benefícios para os estudantes. A escola possui rampas de acessibilidade e coleta seletiva. Possui também biblioteca com atualização constante de livros, assim como laboratório de informática com 12 computadores em bom estado de conservação. A qualidade do sinal de internet é satisfatória, assim como o transporte escolar, a merenda e o quadro docente, com professores e funcionários. Também faz parte das atividades as oficinas por intermédio do programa Mais Educação. Com relação a estrutura do prédio, são necessários reparos no telhado, parte elétrica e pintura.  

Ignácio Montanha 

Atendendo alunos da educação infantil ao 9º Ano, a Ignácio Montanha, no distrito de São Bento é uma das poucas escolas da rede que tem mantido a média estudantil, que hoje é de 116 estudantes. Boa parte deles, 95%, são filhos de empregados de produtores rurais, sem comprometer a taxa de evasão escolar, percebida nas demais escolas. Em contrapartida, para fazer o transporte escolar de todos esses alunos são necessários três ônibus, que ficam a disposição da escola. “Dependemos muito do transporte. Quando algum deles precisa fazer algum conserto na oficina ou mesmo em dias de muita chuva, dependendo da localidade, a exemplo do Três Capões, a professora contará apenas com um aluno em sala de aula”, explica a diretora Mariza Minski. Há dois anos a escola teve a quadra poliesportiva reformada, com implantação de novos equipamentos, mas sem cobertura. Os maiores anseios da escola são a cobertura do pátio e a construção de uma sala de Atendimento Especial (AE). Dentro do programa Mais Educação são desenvolvidas oficias de dança, teatro, conhecimentos pedagógicos e educação física, mas que segundo a diretora, as atividades serão interrompidas no mês de outubro por falta de repasses. A escola ainda conta minilaboratório de informática, com sete computadores, dois novos e os demais com mais de 8 anos de uso. A qualidade do sinal da internet também deixa a desejar. A biblioteca e a sala de professores funciona de forma improvisada. A exemplo das demais diretoras, Mariza diz que encontra dificuldades para encontrar funcionários para realizar reparos. Na sala de informática, uma parte do assoalho está comprometida, e que mesmo solicitando suporte à secretaria, os problemas ainda persiste. 

“Se depender de nós, nenhuma escola será fechada”, diz secretária

A secretária Municipal de Educação Nirlene Boeri admite a existência de problemas, principalmente no quesito da estrutura física das escolas, mas que vem procurando encaminhar a resolutividade com maior brevidade possível. “Tratando-se de nossos estudantes, todas as necessidades se tornam urgentes. Esta realidade nos leva a dedicarmos nossos esforços no sentido de encaminhar todas as demandas por manutenção diariamente, procurando atender as solicitações que nos chegam através das equipes diretivas e também os anseios da comunidade”, conta a secretária.

Conforme Nirlene, atualmente existe uma nova realidade nas escolas de campo, com a redução do número de alunos devido a questões sociais, como por exemplo a natalidade, o que dificulta a obtenção de verbas para mantê-las, e que mesmo assim estes espaços estão mantidos. Ela destaca os avanços e as conquistas obtidas nos últimos anos, tanto por parte da Administração Municipal, como pela equipe de colaboradores que atuam na própria SME e, especialmente, pelas equipes de cada escola. “A questão da evasão escolar é uma realidade estendida a todo território nacional. Se depender de nós, nenhuma escola será fechada em Palmeira das Missões”.

A secretária ressalta ainda os investimentos com reformas, melhoria de bibliotecas e estrutura de trabalho. Sobre a quadro de professores, Nirlene garante que não há déficit, haja vista a as nomeações feitas em 2013 quando foi realizado concurso público. Já com relação ao acesso à internet nas escolas o maior empecilho é a limitação técnica das companhias de internet, mas que há projetos de implementação, inclusive em processo licitatório para as escolas desassistidas.

Sobre a situação dos educandários com quadras esportivas inadequadas para o uso, a responsável pela Pasta diz que está aguardando resposta de projetos já enviados para tal finalidade.  “Reiteramos nosso compromisso e disponibilidade para com os nossos alunos, procurando contornar as inúmeras dificuldades financeiras acarretadas pelo atraso e/ou diminuição dos recursos federais e estaduais nos últimos meses, priorizando as carências mais pontuais e procurando, sempre, melhor qualificar o trabalho realizado. Temos o compromisso em desenvolver no município uma educação básica de qualidade”, conclui.

Reportagem: Pedro Niácome / Milton Taborda

Fotos: Pedro Niácome

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