EMA CORRÊA VARGAS - Amar para viver, lutar para vencer

por Camila Scherer, 04/09/2015 às 17:36 em Especial

Fundadora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Almirante Tamandaré, Dona Ema dedicou 55 anos à sala de aula. 

Filha de pais agricultores, Julio Corrêa e Almerinda Silveira, Ema Corrêa Vargas nasceu em 19 de maio de 1931 no distrito de Passo Raso. Poderia trabalhar na lavoura como os pais, mas cursou Magistério e descobriu que tinha o dom de ensinar. Mas como ensinar na zona rural? A comunidade não possuía escola, e nem nada parecido. Os agricultores tinham pouco, ou nenhum estudo, e seus filhos estavam indo pelo mesmo caminho.

Então Dona Ema, aos 19 anos, já casada e com filhos, conseguiu dar o pontapé inicial no seu sonho: utilizou um galpão na sua residência para dar aula para 15 alunos da região. “Meu marido me apoiou e meus filhos iam para a escola improvisada junto comigo. Ele não tinha muita instrução, mas não queria participar das aulas porque era muito machista. Mas também não me impedia de realizar aquilo que eu nasci para fazer, dar oportunidade para aquelas crianças que não teriam como estudar”.

O início não foi fácil. Dona Ema não contava com muitos recursos, mas do pouco que tinha conseguia comprar o material escolar necessário. Alguns pais de alunos relutaram em levar seus filhos à escola, pois estariam perdendo mão-de-obra, no entanto compreenderam a importância da proposta da professora e se tornaram parceiros na empreitada. “Todo primeiro domingo de maio fazíamos uma festa para arrecadar fundos. A comunidade se uniu à causa. As mães faziam a cuca, os pais faziam o churrasco, as crianças faziam apresentações gauchescas, a festa era grande! Sempre incentivei o desenvolvimento da cultura gaúcha e das nossas raízes em meio ao estudo”.

Os olhos da professora brilham quando fala naquele tempo, as lembranças afloram: “Toda a sexta-feira as aulas eram até o recreio, depois os alunos faziam a limpeza das salas, e quando terminavam estavam liberados para brincadeiras. Eles se divertiam bastante! Todo dia sete de setembro, quando se comemora a Independência do Brasil, eu trazia os alunos para a cidade para desfilar, cada ano com um uniforme de cor diferente”. 

No quesito cobrança, Dona Ema afirma que era durona: “tudo precisava ser decorado, pois na hora da prova o conteúdo tinha que estar na ponta da língua! Eu procurava incentivar as crianças e dar o exemplo para que gostassem de estudar. Eventualmente tinha que aplicar algum castigo nos mais levados, mas a maioria era bem dedicada. Os pais também eram muito presentes. Além da reunião que tínhamos uma vez por mês, eles respondiam prontamente a qualquer chamamento e auxiliavam na resolução do problema.”

Em 1º de maio de 1958 foi inaugurada a Escola Municipal de Ensino Fundamental Almirante Tamandaré pelo prefeito Paulo Ardenghi. Em 1973, as aulas saíram do galpão e passaram para um prédio chamado “Brizoleta”, todo de madeira, construído pela prefeitura no terreno doado por Dona Ema. Nessa época, ela já recebia o auxílio da professora Hedi Maria Machado Muller. Ambas faziam todas as funções da escola, que atendia no turno da manhã e da tarde. Em 1977, quando a escola contava com 110 alunos, foi construído o novo prédio. O lema da escola era: Amar para viver, lutar para vencer e assim foi se fazendo educação... 

A “Escola da Dona Ema”, como ainda é conhecida, ainda passou por mais algumas ampliações até conseguir atender aos 70 alunos que hoje a frequentam, da pré-escola até o 9º Ano, nos turnos da manhã e da tarde. O corpo docente é formado por 14 professores, 03 funcionários e um motorista. Tudo isso porque uma mulher teve um sonho e superou todos os obstáculos para realizá-lo. E, mesmo não estando mais nas salas de aula, continua sendo homenageada por professores e alunos. “É muito gratificante quando ex-alunos vem me visitar para me agradecer, e me contar das faculdades, trabalhos, casamentos, etc. Mostra que o esforço não foi em vão.”

Em 2008 Dona Ema ganhou um troféu de congratulação da escola, em comemoração aos 50 anos de fundação da mesma. Dois anos depois, recebeu o título de Cidadã Emérita de Palmeira das Missões em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à comunidade. Hoje, aos 84 anos, se recupera de um acidente vascular cerebral em sua casa no bairro Ardenghi. O que mais lhe dá alegria é poder relembrar os “bons tempos”: “sou muito feliz e realizada por tudo que conquistei. Se pudesse faria tudo novamente”.

A Tribuna da Produção agradece a honra de poder contar um pouco da história de alguém que ajudou a construir o futuro de muita gente. Se todas as pessoas tivessem a sua força, determinação e amor, esse seria um mundo melhor para se viver.

 

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